domingo, 23 de agosto de 2015

Rumo a Cusco: a primeira cusqueña, o seguro SOAT, a travessia da cordilheira























A expedição se tornara internacional, finalmente. Chegamos à fronteira Brasil-Peru no quarto dia de viagem, por volta das 17 horas. Ficamos cerca de duas horas "presos" na aduana. Havíamos achado esse tempo relativamente rápido, até vermos que em outras fronteiras não gastamos nem meia hora.

A estrada até Puerto Maldonado, nosso primeiro destino de pernoite no Peru, era muito boa, o que ajudou a acelerar a chegada à cidade. Algo curioso que percebemos foi que os motoristas daquela região são estritamente obedientes ao limite máximo de velocidade das rodovias: 60 km/h! Quando avistamos o primeiro deles achamos que fosse exceção, até que todos os carros que apareciam em nossa frente (inclusive um da polícia) não passavam dos 60 km/h. Como nosso foco era chegar antes de meia noite em Puerto Maldonado, seguimos à moda brasileira e ultrapassamos o limite.

Por volta de umas 23 horas, entramos na calamitosa Puerto Maldonado. Nossos dias estavam sempre começando cedo e terminando tarde - por sorte o fuso horário e o pôr-do-sol tardio ajudaram muito. Não existiam atrações turísticas muito importantes na cidade (a Plaza das Armas até que era simpática). Na região existe o Parque Nacional do Manu, mas, infelizmente, não tínhamos tempo para ele.

Talvez a maior característica da cidade seja mesmo a bagunça. Foi lá que avistamos as primeiras motocicletas com três ou quatro pessoas a bordo (muitas vezes crianças ou bebês); os milhares de tuc-tuc nas ruas - meio de transporte mais popular da cidade e presente em todo o Peru; e os cruzamentos sem regras com veículos atravessando ao mesmo tempo, de todos os lados. Foi uma aventura dirigir e caminhar pela cidade.























 
Um brinde revigorante
Puerto Maldonado não tinha muitos atrativos e certamente está entre as cidades menos bonitas que visitamos, mas nos marcou de forma especial. Depois de encontrarmos o hostel Royal Inn (Av. 2 de Mayo) para dormir (bastante exótico, por sinal), descemos e entramos na vendinha de bebidas que tinha ao lado. Compramos nossa primeira Cusqueña (a mais famosa cerveja peruana), brindamos e fomos em busca de um local para comer. Depois de uma maratona de quatro dias com foco na estrada, foi certamente uma das cervejas mais bem degustadas da viagem!




Buscamos em um site de viagens referências de bons restaurantes. Foi onde encontramos o Burgos e iniciamos nossas experiências com a culinária local. Mas foi mesmo a padaria em que tomamos café no dia seguinte (o hostel não oferecia) que nos surpreendeu. As variedades de pães (de milho, de mandioca, de batata...) e os sucos eram deliciosos. Havia muitos doces também, mas não tão apetitosos quanto bonitos. Ficava na rua Leon Velarde, próximo à Plaza das Armas, e chamava-se Magdalena's.

O Royal Inn merece um parágrafo especial, em virtude da sua singularidade exótica. Ele refletia o caos da cidade, com seus milhares de fios de energia passando por todas as paredes dos corredores e suas obras inacabadas (ou em andamento, não dava para saber). A portaria era minúscula, mas por trás dela havia um grande "puxadinho" com muitos quartos em dois andares e um vão central livre (era uma mistura de arquitetura). Os quartos mais novos tinham janelas de vidro muito grandes que não garantiriam privacidade alguma, se não fossem as cortinas. Os quartos cheiravam a mofo e os banheiros não estavam muito bem higienizados. Mas nada que um cansaço muito grande para nos cegar diante de tanta esquisitice por apenas uma noite.

Seguro SOAT
A primeira tarefa do 5º dia era encontrar e pagar o seguro obrigatório do carro no Peru, chamado SOAT, e partir rumo a Cusco.

Na aduana, eles indicaram fazer o seguro em Puerto Maldonado, a cidade mais próxima que oferecia o serviço. Por sorte, a empresa que fazia o seguro (La Positiva) ficava pertinho do nosso hostel. O atendimento foi rápido (no máximo meia hora) e o serviço barato (cerca de 32 reais).

Nós achávamos que o SOAT só cobria terceiros, mas por lá descobrimos que os integrantes do veículo também são assegurados contra morte, invalidez permanente, gastos com serviço médico e funeral.

Endereço e horário de funcionamento La Positiva (Seguradora)
Calle Ernesto Rivera n°536
Segunda a quinta-feira:
8h às 12h30
15h às 18h30
Sábado:
8h às 13h
Documentos necessários:
Habilitação do condutor e documento do veículo (é necessário informar a quantidade de pessoas que irão dentro do veículo).



Cordilheira
Levamos o dia todo para chegar a Cusco. "Gastamos" muito tempo contemplando as estradas em meio às altas montanhas cobertas por florestas da amazônia peruana. Por causa da mata, provavelmente, havia pelo caminho muita água de rios e de degelo que escorria pelas montanhas e atravessavam a pista - muitas vezes estreita. Nesses pontos havia, inclusive, um piso diferente e abaulado (de concreto) para o escoamento da água, que fazia a diversão dos motoristas do Projeto N.E.R.A.

As pistas estreitas e cheias de curvas fechadas e os "siga e pare" (lá também tinha) nos tomou um pouco de tempo. Mas graças a uma dessas paradas conhecemos o Inka Cola, refrigerante doce (!) de cor amarelo fluorescente com sabor chiclete tutti fruti.





























Quanto mais seguíamos em direção a Cusco, mais se aproximava a cordilheira dos Andes, que estávamos ansiosos para atravessar. A paisagem começava a ficar diferente, com uma mata mais baixa e seca, e muitos picos nevados.

Já era noite quando chegamos, literalmente, ao pico da travessia: Abra Pirhuayani, o ponto mais alto da cordilheira. A 4.725m de altitude, às 18:17 horas (hora local) e provavelmente a uns 4 graus Celsius encostamos próximo à placa que comprovaria nossa travessura.

Na cara e na coragem, saímos de dentro do carro para fazer fotos. Foi uma primeira prova de resistência às altas altitudes e ao frio. Ficamos cerca de uma hora por lá. Resultado: alguns sentiram falta de ar e dor de cabeça - era o primeiro mal de altitude do grupo. Por outro lado, pudemos contemplar o céu estrelado em meio à cordilheira nevada e até fazer alguns belos registros. Não precisa nem perguntar se valeu a pena, né?















































Dali em diante, seguimos firmes e fortes rumo a Cusco. Descemos a cordilheira, chegamos à cidade, procuramos uma hospedagem e repomos as energias para conhecer as ricas cultura e história inca da região nos dias seguintes.

Veja mais fotos em nossa página no Facebook!

sábado, 1 de agosto de 2015

De Minas ao Acre: uma jornada de 3.342 quilômetros



























Foi punk! O trajeto começou às 5 horas da manhã, na saída de Belo Horizonte, pela BR-262, rumo ao Acre, dalí a três ou quatro dias. Fizemos em três. Foram mais de 1.000 quilômetros por dia. Mas o foco na travessia Brasil-Peru nos deu energia para aguentar a rotina diária "volante - parada para o café - volante - parada para o xixi - volante… parada para dormir...".

As estradas sempre cheias de retas e com asfalto muito bom (com exceção de partes da Rondônia e do Acre) também foram um incentivo. Como recompensa, o horizonte plano nos proporcionou um pôr-do-sol espetacular por dia. Percorremos as BRs 262, 452, 364, 070, 174, 317 e as estaduais que havia entre essas.















































1º dia:
Alcançamos o primeiro destino por volta das 21 horas: Santa Rita do Araguaia (GO). O previsto era chegar até Mineiros, também em Goiás, cerca de 90 quilômetros antes. Mas era o primeiro dia de expedição, ainda estávamos descansados e prontos para ultrapassar nossos limites.

Dormimos numa das primeiras opções de hospedagem que ficava à avenida principal da cidade, onde passaram também todos os caminhões que cruzamos na rodovia. A hospedagem foi extremamente simples, mas tinha cama e garagem (essa última foi pré-requisito para todas as nossas estadias na viagem). Era o que precisávamos. Mas antes de dormir, entramos no clima de camping e fizemos nossa janta. Na garagem do lugar, abrimos as mesinhas de acampamento e acendemos os fogareiros!

2º dia:
No dia seguinte partimos cedo para atravessar o Mato Grosso e pernoitar em Vilhena, na Rondônia (ufa!). Mais uma vez, as retas com asfalto liso nos permitiram avançar e concluir o segundo dia conforme o planejado. Apesar disso, nesse dia, as estradas bateram recorde no quesito “fluxo de carretas”. Eram M-U-I-T-A-S! Também nos deparamos com alguns "pare e siga". Num deles, deu tempo de bater papo com um dos muitos caminhoneiros parados. Ele revelou que nós já tinhamos passado por ele pelas rodovias três vezes desde o dia anterior! Sentimos que estávamos famosos entre os caminhoneiros e até a animação aumentou para terminar a rota do dia! Será que viramos conversa de boleia de caminhão?!

No meio do caminho, experimentamos da famosa carne do Centro-oeste, sob o calor escaldante e abafado de Cuiabá. Numa churrascaria de posto muito boa decidimos fazer um almoço reforçado, sem medo do sono que poderia vir depois.

Ao chegar em Vilhena, por volta de 22 horas, buscamos um hotel pelo GPS e fizemos check in no Santa Rosa. Por lá, pernoitou também um grupo de motociclistas que seguia para o Atacama pelo Peru, assim como nós. Depois de lá, reencontraríamos os mineiros de Crucilândia algumas vezes mais pelas estradas do Brasil e do Peru.

No hotel, simples, mas muito mais aconchegante que o primeiro, o recepcionista nos contou que havíamos nos livrado dos pedágios dos índios da região, que andam de camionete de luxo e cobram cerca de 50 reais por pessoa para seguir pelas estradas locais. Foi bom ter chegado depois do horário comercial!

3º dia:
No último dia da saga para chegar ao Acre, cumprimos a missão parcialmente, mas ainda assim com sucesso! O objetivo era chegar a Rio Branco, mas pelo caminho descobrimos que não precisávamos. Seria um desvio de cerca de 100 quilômetros na nossa rota.

O dia havia rendido menos; já era noite e ainda não havíamos cruzado a divisa. E não o faríamos até o dia seguinte. Chegamos "somente" até Extrema (RO), totalizando 1.048 quilômetros, Para isso, percorreremos uma reta incessante que beirava por quilômetros uma fronteira obscura com a Bolívia. E depois atravessamos uma balsa sobre o Rio Madeira e sob o primeiro céu estrelado que veríamos pela expedição (para nossa surpresa, foi ainda no Brasil). O cansaço batia à porta e, depois de muitos quilômetros sem ver civilização, eis que surge Extrema!

No primeiro hotel de beira de estrada à vista paramos! Para nossa sorte, tinha vaga, garagem, acomodação confortável e café da manhã bem servido. O Hotel Rodeio parecia recém-construído e tinha inclusive rede wi-fi! Por lá, encontramos com outro grupo de motociclistas que “rumavam” para o Atacama. Esses eram (e vinham) de Maceió (AL).



























Não chegamos ao Acre no terceiro dia, mas faltaram pouco mais de 50 quilômetros para cruzar a divisa. Paramos antes, em Extrema, porque já era tarde (umas 23 horas), estávamos cansados e ainda faltavam cerca de 450 quilômetros para chegar à fronteira com o Peru, pela rodovia Interoceânica (ficou para o dia seguinte). Até ali, foram 3.342 quilômetros.

A expedição começou punk e estávamos cansados. Mas em compensação tínhamos ganhado um dia extra para aproveitar o Peru. Podíamos ter feito o mesmo trajeto em quatro dias, conforme previa nosso plano B. Mas superamos o primeiro dos muitos desafios da viagem, e, a bem da verdade, felizes como pinto no lixo!