A expedição se tornara internacional, finalmente. Chegamos à fronteira Brasil-Peru no quarto dia de viagem, por volta das 17 horas. Ficamos cerca de duas horas "presos" na aduana. Havíamos achado esse tempo relativamente rápido, até vermos que em outras fronteiras não gastamos nem meia hora.
A estrada até Puerto Maldonado, nosso primeiro destino de pernoite no Peru, era muito boa, o que ajudou a acelerar a chegada à cidade. Algo curioso que percebemos foi que os motoristas daquela região são estritamente obedientes ao limite máximo de velocidade das rodovias: 60 km/h! Quando avistamos o primeiro deles achamos que fosse exceção, até que todos os carros que apareciam em nossa frente (inclusive um da polícia) não passavam dos 60 km/h. Como nosso foco era chegar antes de meia noite em Puerto Maldonado, seguimos à moda brasileira e ultrapassamos o limite.
Por volta de umas 23 horas, entramos na calamitosa Puerto Maldonado. Nossos dias estavam sempre começando cedo e terminando tarde - por sorte o fuso horário e o pôr-do-sol tardio ajudaram muito. Não existiam atrações turísticas muito importantes na cidade (a Plaza das Armas até que era simpática). Na região existe o Parque Nacional do Manu, mas, infelizmente, não tínhamos tempo para ele.
Talvez a maior característica da cidade seja mesmo a bagunça. Foi lá que avistamos as primeiras motocicletas com três ou quatro pessoas a bordo (muitas vezes crianças ou bebês); os milhares de tuc-tuc nas ruas - meio de transporte mais popular da cidade e presente em todo o Peru; e os cruzamentos sem regras com veículos atravessando ao mesmo tempo, de todos os lados. Foi uma aventura dirigir e caminhar pela cidade.
Um brinde revigorante
Puerto Maldonado não tinha muitos atrativos e certamente está entre as cidades menos bonitas que visitamos, mas nos marcou de forma especial. Depois de encontrarmos o hostel Royal Inn (Av. 2 de Mayo) para dormir (bastante exótico, por sinal), descemos e entramos na vendinha de bebidas que tinha ao lado. Compramos nossa primeira Cusqueña (a mais famosa cerveja peruana), brindamos e fomos em busca de um local para comer. Depois de uma maratona de quatro dias com foco na estrada, foi certamente uma das cervejas mais bem degustadas da viagem!
Buscamos em um site de viagens referências de bons restaurantes. Foi onde encontramos o Burgos e iniciamos nossas experiências com a culinária local. Mas foi mesmo a padaria em que tomamos café no dia seguinte (o hostel não oferecia) que nos surpreendeu. As variedades de pães (de milho, de mandioca, de batata...) e os sucos eram deliciosos. Havia muitos doces também, mas não tão apetitosos quanto bonitos. Ficava na rua Leon Velarde, próximo à Plaza das Armas, e chamava-se Magdalena's.
O Royal Inn merece um parágrafo especial, em virtude da sua singularidade exótica. Ele refletia o caos da cidade, com seus milhares de fios de energia passando por todas as paredes dos corredores e suas obras inacabadas (ou em andamento, não dava para saber). A portaria era minúscula, mas por trás dela havia um grande "puxadinho" com muitos quartos em dois andares e um vão central livre (era uma mistura de arquitetura). Os quartos mais novos tinham janelas de vidro muito grandes que não garantiriam privacidade alguma, se não fossem as cortinas. Os quartos cheiravam a mofo e os banheiros não estavam muito bem higienizados. Mas nada que um cansaço muito grande para nos cegar diante de tanta esquisitice por apenas uma noite.
A primeira tarefa do 5º dia era encontrar e pagar o seguro obrigatório do carro no Peru, chamado SOAT, e partir rumo a Cusco.
Na aduana, eles indicaram fazer o seguro em Puerto Maldonado, a cidade mais próxima que oferecia o serviço. Por sorte, a empresa que fazia o seguro (La Positiva) ficava pertinho do nosso hostel. O atendimento foi rápido (no máximo meia hora) e o serviço barato (cerca de 32 reais).
Nós achávamos que o SOAT só cobria terceiros, mas por lá descobrimos que os integrantes do veículo também são assegurados contra morte, invalidez permanente, gastos com serviço médico e funeral.
Endereço e horário de funcionamento La Positiva (Seguradora)
Calle Ernesto Rivera n°536
Segunda a quinta-feira:
8h às 12h30
15h às 18h30
Sábado:
8h às 13h
Documentos necessários:
Habilitação do condutor e documento do veículo (é necessário informar a quantidade de pessoas que irão dentro do veículo).
Cordilheira
Levamos o dia todo para chegar a Cusco. "Gastamos" muito tempo contemplando as estradas em meio às altas montanhas cobertas por florestas da amazônia peruana. Por causa da mata, provavelmente, havia pelo caminho muita água de rios e de degelo que escorria pelas montanhas e atravessavam a pista - muitas vezes estreita. Nesses pontos havia, inclusive, um piso diferente e abaulado (de concreto) para o escoamento da água, que fazia a diversão dos motoristas do Projeto N.E.R.A.
As pistas estreitas e cheias de curvas fechadas e os "siga e pare" (lá também tinha) nos tomou um pouco de tempo. Mas graças a uma dessas paradas conhecemos o Inka Cola, refrigerante doce (!) de cor amarelo fluorescente com sabor chiclete tutti fruti.
Quanto mais seguíamos em direção a Cusco, mais se aproximava a cordilheira dos Andes, que estávamos ansiosos para atravessar. A paisagem começava a ficar diferente, com uma mata mais baixa e seca, e muitos picos nevados.
Já era noite quando chegamos, literalmente, ao pico da travessia: Abra Pirhuayani, o ponto mais alto da cordilheira. A 4.725m de altitude, às 18:17 horas (hora local) e provavelmente a uns 4 graus Celsius encostamos próximo à placa que comprovaria nossa travessura.
Na cara e na coragem, saímos de dentro do carro para fazer fotos. Foi uma primeira prova de resistência às altas altitudes e ao frio. Ficamos cerca de uma hora por lá. Resultado: alguns sentiram falta de ar e dor de cabeça - era o primeiro mal de altitude do grupo. Por outro lado, pudemos contemplar o céu estrelado em meio à cordilheira nevada e até fazer alguns belos registros. Não precisa nem perguntar se valeu a pena, né?
Dali em diante, seguimos firmes e fortes rumo a Cusco. Descemos a cordilheira, chegamos à cidade, procuramos uma hospedagem e repomos as energias para conhecer as ricas cultura e história inca da região nos dias seguintes.
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