sábado, 10 de outubro de 2015

Finalizando a passagem pelo Peru com chave de ouro: a velha Machu Picchu e a jovem Huayna Picchu


Por volta das 9 horas da manhã estávamos na porta de entrada da cidade perdida dos incas: Machu Picchu. Um pouco tarde para esse passeio, que pode começar às 6 horas. Mas estávamos muito cansados para madrugar, depois do longo percurso do dia anterior. Depois de visitar a cidade perdida, ainda teríamos que fazer a trilha de volta para Santa Tereza (12 quilômetros) e seguir rumo a Puno, na fronteira com a Bolívia.

Machu Picchu, que significa "velha montanha", fica a uma altitude mais baixa que a de Cusco, onde estávamos dias antes, mas o esforço que se faz para subir os degraus de lá pode ser estafante até para quem já se aclimatou. Cusco fica a 3.360 metros acima do nível do mar, enquanto a cidade perdida está a 2.500 metros.

Na porta do parque, a oferta de guias é grande; barganhamos e escolhemos um deles, por cerca de 140 soles (valor total pro grupo), e começamos o tour. Se o seu espanhol não for nível avançado, tente escolher um guia que não fale tão rápido. Eles têm aqueles discursos cantados e decorados assim como muitos guias de cidades históricas brasileiras. Mas vale a pena contratá-los para lhe contextualizar enquanto você admira o lugar.

Alguns metros depois da entrada no parque você sobe alguns degraus e, rapidamente, se defronta com a visão panorâmica mais clássica de Machu Picchu. É realmente uma visão fenomenal, que não se compara às milhares de reproduções fotográficas que existem. É preciso ver com os próprios olhos, in loco!

Fomos abençoados com um céu claro e limpo, que deixou as gramas da cidade e a selva ao redor ainda mais verdes! No horário que chegamos, a montanha de Huayna Picchu (onde estaríamos dalí umas duas horas) ainda estava parcialmente encoberta pelas nuvens. Ouvimos, inclusive, reclamações de turistas que chegam muito cedo, entre 6 e 8 horas, são surpreendidos com esse cenário nublado e precisam esperar até mais tarde para ter uma boa visão da cidade.






















Ficamos cerca de 40 minutos com o guia, que nos contou detalhes muito curiosos da história desse lugar, que até hoje não se sabe ao certo se foi apenas uma cidade, uma fortaleza ou somente um grande templo de adoração ao Deus Sol. Uma das revelações do nosso guia foi a de que quando a cidade foi "descoberta" por um historiador americano, em 1911, as ruínas estavam completamente escondidas por debaixo de uma densa vegetação. Tivemos também mais uma "aula" sobre como aquelas pedras foram impressionantemente moldadas. Lá é ainda mais fascinante ver e tocar nesse perfeito quebra-cabeça de pedras (nas ruínas ao redor de Cusco começamos a ter uma noção sobre isso).


Ouvimos também que muita terra foi descarregada por lá para a construção da cidade - o equivalente a muitos caminhões, só que o meio utilizado não tinha nada de tecnologia, claro! Para isso, foram usadas as técnicas de carregamento desenvolvidas pelos incas.


Fomos apresentados pelo guia a uma cidade gigante, com setor urbano e setor agrícola - outra área em que aquele povo utilizou técnicas muito avançadas na época para cultivar seus alimentos e evitar erosão. No setor urbano, é possível perceber as residências, enxergar praças e jardins. Passamos por alguns dos principais pontos de visitação, como o templo do sol, o relógio solar e a rocha sagrada. Como ainda subiríamos Huayna Picchu e precisávamos ir embora por volta das 14 horas para fazer a trilha para Santa Teresa, outros ambientes ficaram de fora. A cidade é realmente gigantesca!


























Huayna Picchu - Uma das nossas melhores escolhas foi ter comprado o ingresso para Huayna Picchu para as 10 horas (a outra única opção que existe é às 7 horas). Assim, pudemos acordar um pouquinho mais tarde naquele dia. Deu para recuperar as energias para se deslumbrar com a cidade perdida e subir os degraus da desafiadora e mais famosa montanha desse parque arqueológico.

A montanha símbolo de Machu Picchu nos desafiou em sua subida que pode variar de 40 minutos a 2 horas. O nível de dificuldade também variou para nós quatro, mas certamente o grau de satisfação ao chegar ao cume foi igual para todos. Nos momentos de muito cansaço, respirando um ar rarefeito, éramos incentivamos por quem descia, com frases do tipo "você consegue", "faltam apenas 10 minutos", "vai valer a pena". E realmente valeu! A visão lá de cima transforma Machu Picchu em tamanho de maquete naquela imensidão de montanhas da Cordilheira dos Andes coberta pela selva amazônica.



Para quem já tinha ouvido falar dessa subida e tinha dúvidas: sim, você precisa assinar seu nome antes de começar o trajeto; e sim, ela é uma subida íngreme e cheia de degraus, dos mais finos aos mais altos. Mas, desmistificando o terror que existe e que também nos deixou receosos até chegar lá, explicamos que: a assinatura não significa "assine, pois a responsabilidade é só sua", mas sim uma forma de segurança e de controlar quem entra e quem sai (existe um guia que fica por conta de auxiliar os turistas que demoram para voltar); e sobre os degraus, em boa parte do trajeto existem cabos de aço que nos ajudam a subir; além disso, os degraus mais estreitos não estão a beira de um abismo. Mas se arrastar ou descer sentado em alguns deles é mais seguro e recomendado. Diríamos, então, que é uma subida possível para muitos - talvez não apropriada para quem tem pavor de altura.







Imaginar todo o trabalho que foi construir aquela cidade, naquela altura, nos dá mais forças para completar o percurso. Ver senhores e senhoras passando por você, já tendo subido a trilha, também nos deixa mais motivados. E quando se conquista o cume, a "jovem montanha" (significado de Huyana Picchu) nos faz sentir mais energizados e vencedores.

Enfim, com a visita a Machu Picchu aprendemos que muito ainda se estuda e se especula sobre a cidade inca. A cada nova escavação surgem novas interpretações. Há muito o que se descobrir, mas talvez parte dos viajantes do mundo não terão a oportunidade de ver as atuais e as novas descobertas. A visitação já é algo controlado e pode se findar, em nome da preservação desse patrimônio cultural e natural da humanidade.

Incluir o Peru no nosso roteiro pode ter sido loucura por causa dos cerca de 2.000 quilômetros a mais que tivemos que percorrer por ter partido pelo Norte do Brasil (a outra opção era ir e voltar pelo Sul do País e não incluir o Peru). Mas Machu Picchu foi certamente o lugar que não nos deixa arrepender dessa escolha, que alguns chamariam de "maluca" e nós, de corajosa.

Data do passeio: 12 de junho de 2015
Ingresso Machu Picchu com Huayna Picchu: 152 soles por pessoa
Micro-ônibus de Aguas Calientes até Machu Picchu: 12 dólares por pessoa


terça-feira, 6 de outubro de 2015

A chegada em Aguas Calientes: travessia do paso de Abra Malaga e a trilha de Santa Teresa





















O foco era chegar a Aguas Calientes (ou Machu Picchu Pueblo) ainda no 8º dia. Foi uma das menores distâncias percorridas em um mesmo dia até aquele momento da expedição. Porém, foi também um dos caminhos mais sinuosos, e incluía ainda uma caminhada de 12 quilômetros. Mas era preciso chegar, porque os ingressos para visitar Machu Picchu estavam comprados para o dia seguinte cedo.

Partimos de Urubamba, no Valle Sagrado, por volta das 11 horas, com tranquilidade. Afinal, tínhamos apenas cerca de 130 quilômetros para percorrer. Mas chegamos em Aguas Calientes somente às 21 horas!

Seguimos com calma, aproveitando o restinho do Valle Sagrado. Fizemos uma rápida passagem pela charmosa Ollantaytambo, onde valeria uma pernoite, conforme planejamos, mas tivemos que riscar do plano no dia anterior. Fizemos mais algumas paradas pela estrada para apreciar o vale, que é realmente de tirar o fôlego. São quilômetros de asfalto que cortam os altíssimos paredões de montanhas. Lá você não vê o cenário de longe, mas passa por dentro dele.



























Paso de Abra Malaga - O percurso que seria rápido começou a se prolongar por causa da altitude e das curvas dos vales de Ollantaytambo e de Santa Maria, separados pelo paso de Abra Malaga. O caminho passa a ficar muito sinuoso com curvas que formam zigue-zagues. Foram muitos deles - grandes e pequenos. A altitude freou nossa velocidade, o que foi bom para manter a viagem segura e os viajantes sem risco de enjoos.



Alcançamos a altitude de 4.330 metros, no auge do paso, onde só havia neblina e fazia frio. Mas o restante da paisagem é recompensador. Abra Malaga atravessa a Cordilheira dos Andes e presenteia seus exploradores com paisagens com picos nevados e lhamas atravessando a pista ou fazendo pose nas montanhas. No trajeto de descida, cruzamos com muitos turistas seguindo estrada abaixo de bicicleta, o que nos deixou com uma pontinha de inveja.



Hidrelétrica - As emoções não pararam nas curvas da cordilheira. A travessia desse trecho dos Andes levava a Santa Maria, rota para o próximo pit stop: a cidade de Santa Teresa. Lá começaríamos a trilha de 12 quilômetros a pé para Aguas Calientes, onde é praticamente impossível chegar de veículo próprio. Somente por trekking ou trem. Desde o início, nosso plano foi fazer a primeira opção, seguindo pela trilha que se inicia na hidrelétrica de Santa Teresa. O trem era uma alternativa cara e descartada desde o Brasil pela falta de aventura. ;) Mas quem quiser ir de trem, informamos que é possível partir ainda de Cusco e deve-se comprar as passagens com a mesma antecedência que os ingressos para Machu Picchu.

Chegando a Santa Maria, existe uma entrada à esquerda que leva a uma estrada de terra que não encontraríamos não fosse a geolocalização do GPS. Não existiam placas. Mas antes de entrar na "estrada da morte", estacionamos para um pão com ovo, afinal, já eram umas 14 horas.

Nosso plano era chegar à hidrelétrica até antes das 17 horas para não fazermos a trilha à noite. Por sorte chegamos pouca coisa depois. A estrada de terra era muito estreita e margeada por ribanceiras que terminavam no imenso Rio Vilcanota. A paisagem árida e cinza contrastava com a imensa quantidade de água do rio que serpenteava a rota logo abaixo. Ficamos imaginando como não seria o volume de água em época de chuva...















































Depois de cerca de 40 minutos só na companhia do rio, eis que surge Santa Teresa, com toda uma estrutura de cidade, mesmo que pequena. O sol já baixava e rapidamente buscamos informações sobre como chegar à hidrelétrica e onde deixar o carro. Recebemos a indicação de um camping que nos pareceu bem seguro (sorte a nossa, porque já não sobrava tempo para escolhas). Havia estacionado lá um jipe com placa da Suécia. Era de um casal daquele país que viajava pela América do Sul e acabara de fazer a trilha que iríamos começar. Trocamos algumas dicas e partimos em um "táxi" improvisado no local com as mochilas prontas para aquele dia e o seguinte (as malas estavam arrumadas desde Cusco).

Em Santa Teresa é comum esse transporte de turistas por motoristas locais até a hidrelétrica. Pagamos relativamente barato: 5 soles por pessoa. E deixamos combinado para que nos buscassem no dia seguinte (já? sim!) por volta desse mesmo horário (mais 5 soles por pessoa). A ida para Aguas Calientes por esse caminho é uma opção barata (não há ingressos para fazer o trekking), rápida e fácil, se comparada com a trilha inca oficial, que leva de 2 a 5 dias e custa algumas centenas de dólares.

Do "táxi" até o início da trilha eram mais 20 minutos pela continuação da estrada anterior com suas ribanceiras. Vimos a famosa hidrelétrica do alto e um desvio de água impressionante que vazava de um buraco gigante e redondo cravado em uma das imensas rochas do local (imaginamos que isso deveria ser obra da hidrelétrica). Se estivéssemos no nosso carro (o que não é permitido ou recomendado), demoraríamos muito mais. Mas os motoristas que vão e vem estão acostumados com as vias estreitas, os cruzamentos com outros carros e os buracos no chão. Para eles era automático, para nós foi parte da aventura!

Trilha sobre trilhos - Por volta de 17h30, quase como previmos, o táxi nos deixou no ponto de partida da trilha, ao longo dos trilhos do trem. Tínhamos lido que a caminhada duraria cerca de 3 horas. Mas demoramos um pouco mais. Nosso ritmo não foi lento, principalmente, depois que a noite caiu e já não havia mais paisagem para nos distrair. Na volta fizemos o mesmo percurso (afinal, precisávamos buscar os carros) e marcamos o tempo e a distância. O foco nos fez chegar bem mais rápido (2h30). E o Maps.me comprovou o trabalho duro: são 12 quilômetros de caminhada.

Mas vale cada centímetro deles para quem está disposto ao esforço. Você cruza com vários turistas na ida e na volta e curte o clima tropical por um caminho seguro. O tempo inteiro você está cercado de mata, água, enfim, natureza! É possível ver, de um dos trechos, um pedacinho da cidade de Machu Picchu lá em cima de uma montanha! E vez ou outra o trem passa e relembra que estamos no caminho certo e que há civilização por perto.

Na ida e na volta fizemos o final do trecho à noite, mas na ida o pedaço no escuro foi maior e nos deixou muito ansiosos, porque já tínhamos pouco mais de três horas de caminhada e não havia sinal de luz ou cidade por perto. Mas de repente, depois de uma última curva, já fora do caminho dos trilhos, surge o vilarejo que nos levaria a Machu Picchu!

A entrada da cidade por essa trilha não é tão charmosa. Parece que entramos por uma espécie de galpão de reciclagem de lixo seco, mas logo avistamos os vários micro-onibus que sobem de lá para Machu Picchu (os únicos transportes da cidade) e uma rua calçada que leva às primeiras pousadas.





















É um vilarejo charmoso, muito pequeno e dividido por um rio. À noite é ainda mais bonito com as luzes dos restaurantes e das ruazinhas, onde só se circula a pé. Durante o dia dá para ver a arquitetura simples do local, mas que não diminui a principal beleza dele: estar encrustado no meio das mais altas montanhas. Além disso, era porta de entrada para Machu Picchu, que conheceríamos no dia seguinte!