sábado, 10 de outubro de 2015

Finalizando a passagem pelo Peru com chave de ouro: a velha Machu Picchu e a jovem Huayna Picchu


Por volta das 9 horas da manhã estávamos na porta de entrada da cidade perdida dos incas: Machu Picchu. Um pouco tarde para esse passeio, que pode começar às 6 horas. Mas estávamos muito cansados para madrugar, depois do longo percurso do dia anterior. Depois de visitar a cidade perdida, ainda teríamos que fazer a trilha de volta para Santa Tereza (12 quilômetros) e seguir rumo a Puno, na fronteira com a Bolívia.

Machu Picchu, que significa "velha montanha", fica a uma altitude mais baixa que a de Cusco, onde estávamos dias antes, mas o esforço que se faz para subir os degraus de lá pode ser estafante até para quem já se aclimatou. Cusco fica a 3.360 metros acima do nível do mar, enquanto a cidade perdida está a 2.500 metros.

Na porta do parque, a oferta de guias é grande; barganhamos e escolhemos um deles, por cerca de 140 soles (valor total pro grupo), e começamos o tour. Se o seu espanhol não for nível avançado, tente escolher um guia que não fale tão rápido. Eles têm aqueles discursos cantados e decorados assim como muitos guias de cidades históricas brasileiras. Mas vale a pena contratá-los para lhe contextualizar enquanto você admira o lugar.

Alguns metros depois da entrada no parque você sobe alguns degraus e, rapidamente, se defronta com a visão panorâmica mais clássica de Machu Picchu. É realmente uma visão fenomenal, que não se compara às milhares de reproduções fotográficas que existem. É preciso ver com os próprios olhos, in loco!

Fomos abençoados com um céu claro e limpo, que deixou as gramas da cidade e a selva ao redor ainda mais verdes! No horário que chegamos, a montanha de Huayna Picchu (onde estaríamos dalí umas duas horas) ainda estava parcialmente encoberta pelas nuvens. Ouvimos, inclusive, reclamações de turistas que chegam muito cedo, entre 6 e 8 horas, são surpreendidos com esse cenário nublado e precisam esperar até mais tarde para ter uma boa visão da cidade.






















Ficamos cerca de 40 minutos com o guia, que nos contou detalhes muito curiosos da história desse lugar, que até hoje não se sabe ao certo se foi apenas uma cidade, uma fortaleza ou somente um grande templo de adoração ao Deus Sol. Uma das revelações do nosso guia foi a de que quando a cidade foi "descoberta" por um historiador americano, em 1911, as ruínas estavam completamente escondidas por debaixo de uma densa vegetação. Tivemos também mais uma "aula" sobre como aquelas pedras foram impressionantemente moldadas. Lá é ainda mais fascinante ver e tocar nesse perfeito quebra-cabeça de pedras (nas ruínas ao redor de Cusco começamos a ter uma noção sobre isso).


Ouvimos também que muita terra foi descarregada por lá para a construção da cidade - o equivalente a muitos caminhões, só que o meio utilizado não tinha nada de tecnologia, claro! Para isso, foram usadas as técnicas de carregamento desenvolvidas pelos incas.


Fomos apresentados pelo guia a uma cidade gigante, com setor urbano e setor agrícola - outra área em que aquele povo utilizou técnicas muito avançadas na época para cultivar seus alimentos e evitar erosão. No setor urbano, é possível perceber as residências, enxergar praças e jardins. Passamos por alguns dos principais pontos de visitação, como o templo do sol, o relógio solar e a rocha sagrada. Como ainda subiríamos Huayna Picchu e precisávamos ir embora por volta das 14 horas para fazer a trilha para Santa Teresa, outros ambientes ficaram de fora. A cidade é realmente gigantesca!


























Huayna Picchu - Uma das nossas melhores escolhas foi ter comprado o ingresso para Huayna Picchu para as 10 horas (a outra única opção que existe é às 7 horas). Assim, pudemos acordar um pouquinho mais tarde naquele dia. Deu para recuperar as energias para se deslumbrar com a cidade perdida e subir os degraus da desafiadora e mais famosa montanha desse parque arqueológico.

A montanha símbolo de Machu Picchu nos desafiou em sua subida que pode variar de 40 minutos a 2 horas. O nível de dificuldade também variou para nós quatro, mas certamente o grau de satisfação ao chegar ao cume foi igual para todos. Nos momentos de muito cansaço, respirando um ar rarefeito, éramos incentivamos por quem descia, com frases do tipo "você consegue", "faltam apenas 10 minutos", "vai valer a pena". E realmente valeu! A visão lá de cima transforma Machu Picchu em tamanho de maquete naquela imensidão de montanhas da Cordilheira dos Andes coberta pela selva amazônica.



Para quem já tinha ouvido falar dessa subida e tinha dúvidas: sim, você precisa assinar seu nome antes de começar o trajeto; e sim, ela é uma subida íngreme e cheia de degraus, dos mais finos aos mais altos. Mas, desmistificando o terror que existe e que também nos deixou receosos até chegar lá, explicamos que: a assinatura não significa "assine, pois a responsabilidade é só sua", mas sim uma forma de segurança e de controlar quem entra e quem sai (existe um guia que fica por conta de auxiliar os turistas que demoram para voltar); e sobre os degraus, em boa parte do trajeto existem cabos de aço que nos ajudam a subir; além disso, os degraus mais estreitos não estão a beira de um abismo. Mas se arrastar ou descer sentado em alguns deles é mais seguro e recomendado. Diríamos, então, que é uma subida possível para muitos - talvez não apropriada para quem tem pavor de altura.







Imaginar todo o trabalho que foi construir aquela cidade, naquela altura, nos dá mais forças para completar o percurso. Ver senhores e senhoras passando por você, já tendo subido a trilha, também nos deixa mais motivados. E quando se conquista o cume, a "jovem montanha" (significado de Huyana Picchu) nos faz sentir mais energizados e vencedores.

Enfim, com a visita a Machu Picchu aprendemos que muito ainda se estuda e se especula sobre a cidade inca. A cada nova escavação surgem novas interpretações. Há muito o que se descobrir, mas talvez parte dos viajantes do mundo não terão a oportunidade de ver as atuais e as novas descobertas. A visitação já é algo controlado e pode se findar, em nome da preservação desse patrimônio cultural e natural da humanidade.

Incluir o Peru no nosso roteiro pode ter sido loucura por causa dos cerca de 2.000 quilômetros a mais que tivemos que percorrer por ter partido pelo Norte do Brasil (a outra opção era ir e voltar pelo Sul do País e não incluir o Peru). Mas Machu Picchu foi certamente o lugar que não nos deixa arrepender dessa escolha, que alguns chamariam de "maluca" e nós, de corajosa.

Data do passeio: 12 de junho de 2015
Ingresso Machu Picchu com Huayna Picchu: 152 soles por pessoa
Micro-ônibus de Aguas Calientes até Machu Picchu: 12 dólares por pessoa


terça-feira, 6 de outubro de 2015

A chegada em Aguas Calientes: travessia do paso de Abra Malaga e a trilha de Santa Teresa





















O foco era chegar a Aguas Calientes (ou Machu Picchu Pueblo) ainda no 8º dia. Foi uma das menores distâncias percorridas em um mesmo dia até aquele momento da expedição. Porém, foi também um dos caminhos mais sinuosos, e incluía ainda uma caminhada de 12 quilômetros. Mas era preciso chegar, porque os ingressos para visitar Machu Picchu estavam comprados para o dia seguinte cedo.

Partimos de Urubamba, no Valle Sagrado, por volta das 11 horas, com tranquilidade. Afinal, tínhamos apenas cerca de 130 quilômetros para percorrer. Mas chegamos em Aguas Calientes somente às 21 horas!

Seguimos com calma, aproveitando o restinho do Valle Sagrado. Fizemos uma rápida passagem pela charmosa Ollantaytambo, onde valeria uma pernoite, conforme planejamos, mas tivemos que riscar do plano no dia anterior. Fizemos mais algumas paradas pela estrada para apreciar o vale, que é realmente de tirar o fôlego. São quilômetros de asfalto que cortam os altíssimos paredões de montanhas. Lá você não vê o cenário de longe, mas passa por dentro dele.



























Paso de Abra Malaga - O percurso que seria rápido começou a se prolongar por causa da altitude e das curvas dos vales de Ollantaytambo e de Santa Maria, separados pelo paso de Abra Malaga. O caminho passa a ficar muito sinuoso com curvas que formam zigue-zagues. Foram muitos deles - grandes e pequenos. A altitude freou nossa velocidade, o que foi bom para manter a viagem segura e os viajantes sem risco de enjoos.



Alcançamos a altitude de 4.330 metros, no auge do paso, onde só havia neblina e fazia frio. Mas o restante da paisagem é recompensador. Abra Malaga atravessa a Cordilheira dos Andes e presenteia seus exploradores com paisagens com picos nevados e lhamas atravessando a pista ou fazendo pose nas montanhas. No trajeto de descida, cruzamos com muitos turistas seguindo estrada abaixo de bicicleta, o que nos deixou com uma pontinha de inveja.



Hidrelétrica - As emoções não pararam nas curvas da cordilheira. A travessia desse trecho dos Andes levava a Santa Maria, rota para o próximo pit stop: a cidade de Santa Teresa. Lá começaríamos a trilha de 12 quilômetros a pé para Aguas Calientes, onde é praticamente impossível chegar de veículo próprio. Somente por trekking ou trem. Desde o início, nosso plano foi fazer a primeira opção, seguindo pela trilha que se inicia na hidrelétrica de Santa Teresa. O trem era uma alternativa cara e descartada desde o Brasil pela falta de aventura. ;) Mas quem quiser ir de trem, informamos que é possível partir ainda de Cusco e deve-se comprar as passagens com a mesma antecedência que os ingressos para Machu Picchu.

Chegando a Santa Maria, existe uma entrada à esquerda que leva a uma estrada de terra que não encontraríamos não fosse a geolocalização do GPS. Não existiam placas. Mas antes de entrar na "estrada da morte", estacionamos para um pão com ovo, afinal, já eram umas 14 horas.

Nosso plano era chegar à hidrelétrica até antes das 17 horas para não fazermos a trilha à noite. Por sorte chegamos pouca coisa depois. A estrada de terra era muito estreita e margeada por ribanceiras que terminavam no imenso Rio Vilcanota. A paisagem árida e cinza contrastava com a imensa quantidade de água do rio que serpenteava a rota logo abaixo. Ficamos imaginando como não seria o volume de água em época de chuva...















































Depois de cerca de 40 minutos só na companhia do rio, eis que surge Santa Teresa, com toda uma estrutura de cidade, mesmo que pequena. O sol já baixava e rapidamente buscamos informações sobre como chegar à hidrelétrica e onde deixar o carro. Recebemos a indicação de um camping que nos pareceu bem seguro (sorte a nossa, porque já não sobrava tempo para escolhas). Havia estacionado lá um jipe com placa da Suécia. Era de um casal daquele país que viajava pela América do Sul e acabara de fazer a trilha que iríamos começar. Trocamos algumas dicas e partimos em um "táxi" improvisado no local com as mochilas prontas para aquele dia e o seguinte (as malas estavam arrumadas desde Cusco).

Em Santa Teresa é comum esse transporte de turistas por motoristas locais até a hidrelétrica. Pagamos relativamente barato: 5 soles por pessoa. E deixamos combinado para que nos buscassem no dia seguinte (já? sim!) por volta desse mesmo horário (mais 5 soles por pessoa). A ida para Aguas Calientes por esse caminho é uma opção barata (não há ingressos para fazer o trekking), rápida e fácil, se comparada com a trilha inca oficial, que leva de 2 a 5 dias e custa algumas centenas de dólares.

Do "táxi" até o início da trilha eram mais 20 minutos pela continuação da estrada anterior com suas ribanceiras. Vimos a famosa hidrelétrica do alto e um desvio de água impressionante que vazava de um buraco gigante e redondo cravado em uma das imensas rochas do local (imaginamos que isso deveria ser obra da hidrelétrica). Se estivéssemos no nosso carro (o que não é permitido ou recomendado), demoraríamos muito mais. Mas os motoristas que vão e vem estão acostumados com as vias estreitas, os cruzamentos com outros carros e os buracos no chão. Para eles era automático, para nós foi parte da aventura!

Trilha sobre trilhos - Por volta de 17h30, quase como previmos, o táxi nos deixou no ponto de partida da trilha, ao longo dos trilhos do trem. Tínhamos lido que a caminhada duraria cerca de 3 horas. Mas demoramos um pouco mais. Nosso ritmo não foi lento, principalmente, depois que a noite caiu e já não havia mais paisagem para nos distrair. Na volta fizemos o mesmo percurso (afinal, precisávamos buscar os carros) e marcamos o tempo e a distância. O foco nos fez chegar bem mais rápido (2h30). E o Maps.me comprovou o trabalho duro: são 12 quilômetros de caminhada.

Mas vale cada centímetro deles para quem está disposto ao esforço. Você cruza com vários turistas na ida e na volta e curte o clima tropical por um caminho seguro. O tempo inteiro você está cercado de mata, água, enfim, natureza! É possível ver, de um dos trechos, um pedacinho da cidade de Machu Picchu lá em cima de uma montanha! E vez ou outra o trem passa e relembra que estamos no caminho certo e que há civilização por perto.

Na ida e na volta fizemos o final do trecho à noite, mas na ida o pedaço no escuro foi maior e nos deixou muito ansiosos, porque já tínhamos pouco mais de três horas de caminhada e não havia sinal de luz ou cidade por perto. Mas de repente, depois de uma última curva, já fora do caminho dos trilhos, surge o vilarejo que nos levaria a Machu Picchu!

A entrada da cidade por essa trilha não é tão charmosa. Parece que entramos por uma espécie de galpão de reciclagem de lixo seco, mas logo avistamos os vários micro-onibus que sobem de lá para Machu Picchu (os únicos transportes da cidade) e uma rua calçada que leva às primeiras pousadas.





















É um vilarejo charmoso, muito pequeno e dividido por um rio. À noite é ainda mais bonito com as luzes dos restaurantes e das ruazinhas, onde só se circula a pé. Durante o dia dá para ver a arquitetura simples do local, mas que não diminui a principal beleza dele: estar encrustado no meio das mais altas montanhas. Além disso, era porta de entrada para Machu Picchu, que conheceríamos no dia seguinte!


quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Sobre três ruínas, um vale e um camping no lago














































No 7º dia de expedição começava o percurso de Cusco rumo à cidade perdida dos Incas – Machu Picchu. Mas bem antes de chegarmos a ela, no caminho, visitamos outras ruínas importantes dessa antiga civilização e também um vale mais do que sagrado, tamanha beleza.

Ainda em Cusco, compramos um boleto turístico para passear pelas ruínas que existem na saída da cidade, no sentido de Pisaq, no Valle Sagrado. Ao todo são quatro, mas uma delas (Pukapukara) ficou de fora, porque a localização era contrária à rota das demais, e ela não nos permitiria passar por Pisaq, que estava nos planos desde o início. Decidimos, então, ganhar na quantidade e visitar Saqsaywaman, Qenqo e Tambomachay.

A primeira - Saqsaywaman - foi a de maior encanto e admiração. Contratamos uma guia no próprio local, que nos explicou, com muita simpatia, como aquelas pedras gigantes (algumas com quase 100 toneladas) foram parar lá e por qual motivo.















































Ficamos impressionados em saber que toda aquela arquitetura de pedras, construída para agradecer e rezar ao Deus Sol, foi milimetricamente moldada pela força e sabedoria daquele povo, sem ajuda nenhuma de tecnologia, em pleno século XV. Deu para entender, com isso, o quanto a cultura inca está fortemente ligada à religião, tamanho foi o tempo e a dedicação para construir o templo de Saqsaywaman! Os encaixes perfeitos das pedras e a vista que se tem de lá da cidade de Cusco também valem a visita!



















































Por lá soubemos, ainda, de outras informações curiosas:
  • inicialmente o mapa de Cusco tinha o formato de um puma e Saqsaywaman está localizada onde seria a cabeça do animal;
  • as pedras maiores e da base das ruínas eram encaixadas em sua maioria sem o auxílio de qualquer tipo de "argamassa" ou argila;
  • usava-se água para ajudar a moldar as pedras;
  • as pedras eram carregadas em cima de uma estrutura de bolas (também de pedra) para facilitar o transporte delas.
As outras duas ruínas são muito menores, mas não deixaram de ganhar nossa admiração pelas suas peculiaridades. Qenqo, que era um templo e um local para se fazer sacrifícios, formava um labirinto de pedras que, à primeira vista, parece simples, sem lapidação. Mas enquanto andávamos entre as rochas percebíamos o quanto cada curva foi arquitetada.

Tambomachay também era um templo, mas por outro lado, voltado para o culto à água. Entre as ruínas há um canal escondido que deságua em uma banheira de pedra. Como se não bastasse a perfeição das construções, os incas impressionaram ainda mais ao juntar água corrente a toda essa maestria.



























Depois de conhecer esses sítios arqueológicos percebemos que a visita a Machu Picchu seria algo muito grandioso. Faltavam dois dias.

O Valle - Seguindo viagem, optamos por desfrutar o dia contemplando as montanhas e as cidades do Valle Sagrado. Além das várias paradas nos mirantes da belíssima estrada, fizemos um apetitoso e custoso (no sentido real da palavra) pit stop em Pisaq. A pequena cidade nos encantou já de longe quando a avistamos pela rodovia cercada por montanhas gigantes iluminadas pelo sol, que já estava a pino.




















A parada foi apetitosa pelas frutas deliciosas do mercado e pelo almoço caprichado em um dos muitos restaurantes localizados ao redor da praça da cidade. E foi custosa porque gastamos uns bons soles na grande feira de artesanato da cidade. Um ótimo custo x benefício para comprar cerâmica, panos, tapetes, souvenirs, bolsas, roupas etc! A feira é completa e com produtos de boa qualidade! Já falamos mais dela em outro post.

Essa parada não podia ter dado em outra: partimos atrasados. O plano era acampar e pernoitar em Ollantaytambo (outra cidade charmosa do vale e com ruínas para apreciar), mas pela previsão do GPS não chegaríamos antes de o sol se por. Foi então que descobrimos que, meio fora do caminho, tinha um lago... com um camping! Tínhamos levado essa - e outras muitas - geolocalização que encontramos em pesquisas feitas na internet.

Mas será que acharíamos mesmo o lugar? Senão, teríamos que voltar tudo e chegar ainda mais tarde no último destino do dia. Depois de cerca de meia hora apreensivos, seguindo no sentido oposto da nossa rota, encontramos o camping, com apenas uma estrada de terra e o lago Huaypo para nos fazer companhia. Perfeito!



Chegamos com o restinho de luz suficiente para montarmos acampamento e reconhecermos o ambiente. Preparamos o jantar e fomos descansar. No dia seguinte, o café da manhã foi praticamente de hotel. Abrimos nossas caixas de mantimentos e tiramos tudo pra fora pra comemorar o primeiro café da manhã de acampamento da viagem (com vista para o lago!). O café caprichado foi tão bom que em todos os outros desayunos fizemos questão de arrumar a mesa e aproveitar a vista que de costume tínhamos.




















O camping nos proporcionou também a primeira experiência “aventura no frio”. Tivemos que lavar as vasilhas e escovar os dentes com a água gelada do lago; acampar a cerca de 8 graus; e usar o banheiro, sem existir banheiro. Humm... Se faríamos isso de novo? Por isso e por tudo que veio depois, diríamos que sim!








































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quinta-feira, 17 de setembro de 2015

A passagem por Cusco - a guardiã da cultura Inca


A viagem era de aventura, mas garantimos boas doses de cultura e de história ao passar por Cusco e Machu Picchu. Cada uma dessas cidades merece um post único. Vamos, então, pela ordem: a antiga capital do Império Inca - Cusco. ;)

Nossa estadia foi corrida e, muito infelizmente, não deu tempo de conhecer todos os museus, igrejas, praças etc. Ficamos dois dias e três noites na cidade, mas precisamos dividir o tempo com tarefas imprescindíveis para a expedição: troca de óleo e filtro de óleo dos carros e troca de hotel, de um dia pro outro. Parecem tarefas rápidas, mas ao somar a elas a locomoção dos carros pelo trânsito agitado da cidade, tomou-nos um bom tempo.

Foi lá nosso primeiro contato mais próximo com o povo quéchua e nossa primeira prova de fogo contra a alta altitude. Iniciamos nossa adaptação, passando quatro dias a 3.360 metros acima do nível do mar. Conhecemos e abusamos do chá e da folha de coca, à venda em todo lugar e sempre servido nos cafés da manhã dos hotéis. Também fizemos uso de algumas pílulas de ibuprofeno, um dos remédios mais indicados para o mal de altitude.

Chegada - Já era tarde quando chegamos na cidade, no dia 8 de junho. Não tínhamos reserva de hotel e, ainda por cima, nos perdemos uns dos outros ao tentar encontrar a opção de hospedagem que buscamos pelo guia: Hostal El Andariego. Recomendamos sem medo o lugar, que tivemos que abandonar já no dia seguinte, porque só tinha vaga para uma pernoite.

Teria sido um acontecimento infeliz se o próximo hotel não fosse tão interessante quanto: Hotel Monasterio San Pedro. O primeiro tinha ar de pousadinha romântica, com quartos aconchegantes e novos. O segundo era um antigo mosteiro do ano de 1650, e, apesar de ficar em frente ao mercado central da cidade, tinha um silêncio digno de meditação e três jardins internos com roseiras. Freiras cuidam do local, que também abriga, alimenta e educa meninas órfãs. Ótimo custo x benefício.

Mas voltando ao desencontro da chegada, não poderíamos ter nos reencontrado em lugar melhor para sentir o clima da cidade: a Plaza das Armas. É considerada o coração de Cusco, com restaurantes, hotéis, prédios históricos e o complexo da catedral com outras duas igrejas, uma do lado direito outra do lado esquerdo da praça. Apreciamos tudo por fora, por causa da falta de tempo, mas ficou a vontade de voltar para se dedicar somente à contemplação dos detalhes arquitetônicos da mistura inca-hispânica. Também tivemos a oportunidade de curtir todo o encanto da praça à luz do sol, no dia seguinte.














































Nesse dia, também, depois da troca de hotel, nos deliciamos com a comida e os produtos do Mercado San Pedro (nos perdemos por horas lá dentro e desbravamos o local de cabo a rabo); conhecemos mais da história Inca no Museu Inka; percorremos as ruas do centro histórico (pechinchamos mais alguns souvenirs), entre elas, a Calle Hatunrumiyoc, com a única Pedra dos 12 Ângulos que ainda resta na história da civilização Inca.




Terminamos o dia com a subida ao bairro San Blás. Depois da escadaria da Cuesta de San Blas, sentamos num agradável restaurante quase de frente para a Plazoleta e degustamos o famoso porquinho da Índia (em espanhol, cuy) e outras delícias mais. Tudo acompanhado do típico e verdadeiro pisco sour, que veio no vaso de Quero. Talvez pelo horário ou pelo dia da semana, o bairro, famoso pela boemia e bares com música ao vivo, estava calmo e sem movimento - mas nem por isso menos charmoso.







































































O terceiro dia foi mais um arremate do passeio pelo mercado central, afinal, estávamos hospedados em frente a ele, no Monastério (uma boa localização para quem quer ir a pé também ao centro histórico). As meninas aproveitaram as últimas horinhas de passeio, enquanto os meninos foram trocar o óleo dos carros.



Trânsito lôko - Por falar em carro, vale deixar registrado um relato sobre o trânsito da cidade. É um verdadeiro caos dirigir pelo centro histórico, com ruas apertadas e muitos carros e ônibus circulando. Muitas vezes o GPS manda você para a contra-mão; outras vezes você não consegue olhar tão rápido a direção pelos mapas. Por causa desse caos, um casal Nera se perdeu do outro, no primeiro e no segundo dia; o Tanque ganhou uma cicatriz (leia-se arranhão); e todos do Projeto Nera ficaram, em um momento ou outro, prestes a arrancar os cabelos!

A experiência valeu para sentirmos na pele a dificuldade que também existe ao viajar de carro (nem tudo são flores). Verdade seja dita, às vezes você precisa ter paciência ao circular pelos centros das cidades desconhecidas para enfrentar engarrafamentos, labirintos de ruelas e a direção dos motoristas locais. É meia horinha perdida ali, meia horinha acolá. E, no final, poderia ter sido um passeio pelo museu que ficou faltando. Mas não tem como tirar essa parte do pacote. E nem precisa, porque todas as outras vantagens de uma viagem com carro próprio compensam!

Concluímos que Cusco merece não apenas uma passagem, como foi o nosso caso, mas uma estadia sem pressa, com tempo para apreciar a riquíssima cultura local. Para nós, ficou a vontade de voltar e conhecer de perto os detalhes das mil atrações da cidade e andar mais junto às cholas que continuam mantendo vivos os costumes do povo quéchua. Enfim, ficou a vontade de voltar para apenas contemplar!

domingo, 23 de agosto de 2015

Rumo a Cusco: a primeira cusqueña, o seguro SOAT, a travessia da cordilheira























A expedição se tornara internacional, finalmente. Chegamos à fronteira Brasil-Peru no quarto dia de viagem, por volta das 17 horas. Ficamos cerca de duas horas "presos" na aduana. Havíamos achado esse tempo relativamente rápido, até vermos que em outras fronteiras não gastamos nem meia hora.

A estrada até Puerto Maldonado, nosso primeiro destino de pernoite no Peru, era muito boa, o que ajudou a acelerar a chegada à cidade. Algo curioso que percebemos foi que os motoristas daquela região são estritamente obedientes ao limite máximo de velocidade das rodovias: 60 km/h! Quando avistamos o primeiro deles achamos que fosse exceção, até que todos os carros que apareciam em nossa frente (inclusive um da polícia) não passavam dos 60 km/h. Como nosso foco era chegar antes de meia noite em Puerto Maldonado, seguimos à moda brasileira e ultrapassamos o limite.

Por volta de umas 23 horas, entramos na calamitosa Puerto Maldonado. Nossos dias estavam sempre começando cedo e terminando tarde - por sorte o fuso horário e o pôr-do-sol tardio ajudaram muito. Não existiam atrações turísticas muito importantes na cidade (a Plaza das Armas até que era simpática). Na região existe o Parque Nacional do Manu, mas, infelizmente, não tínhamos tempo para ele.

Talvez a maior característica da cidade seja mesmo a bagunça. Foi lá que avistamos as primeiras motocicletas com três ou quatro pessoas a bordo (muitas vezes crianças ou bebês); os milhares de tuc-tuc nas ruas - meio de transporte mais popular da cidade e presente em todo o Peru; e os cruzamentos sem regras com veículos atravessando ao mesmo tempo, de todos os lados. Foi uma aventura dirigir e caminhar pela cidade.























 
Um brinde revigorante
Puerto Maldonado não tinha muitos atrativos e certamente está entre as cidades menos bonitas que visitamos, mas nos marcou de forma especial. Depois de encontrarmos o hostel Royal Inn (Av. 2 de Mayo) para dormir (bastante exótico, por sinal), descemos e entramos na vendinha de bebidas que tinha ao lado. Compramos nossa primeira Cusqueña (a mais famosa cerveja peruana), brindamos e fomos em busca de um local para comer. Depois de uma maratona de quatro dias com foco na estrada, foi certamente uma das cervejas mais bem degustadas da viagem!




Buscamos em um site de viagens referências de bons restaurantes. Foi onde encontramos o Burgos e iniciamos nossas experiências com a culinária local. Mas foi mesmo a padaria em que tomamos café no dia seguinte (o hostel não oferecia) que nos surpreendeu. As variedades de pães (de milho, de mandioca, de batata...) e os sucos eram deliciosos. Havia muitos doces também, mas não tão apetitosos quanto bonitos. Ficava na rua Leon Velarde, próximo à Plaza das Armas, e chamava-se Magdalena's.

O Royal Inn merece um parágrafo especial, em virtude da sua singularidade exótica. Ele refletia o caos da cidade, com seus milhares de fios de energia passando por todas as paredes dos corredores e suas obras inacabadas (ou em andamento, não dava para saber). A portaria era minúscula, mas por trás dela havia um grande "puxadinho" com muitos quartos em dois andares e um vão central livre (era uma mistura de arquitetura). Os quartos mais novos tinham janelas de vidro muito grandes que não garantiriam privacidade alguma, se não fossem as cortinas. Os quartos cheiravam a mofo e os banheiros não estavam muito bem higienizados. Mas nada que um cansaço muito grande para nos cegar diante de tanta esquisitice por apenas uma noite.

Seguro SOAT
A primeira tarefa do 5º dia era encontrar e pagar o seguro obrigatório do carro no Peru, chamado SOAT, e partir rumo a Cusco.

Na aduana, eles indicaram fazer o seguro em Puerto Maldonado, a cidade mais próxima que oferecia o serviço. Por sorte, a empresa que fazia o seguro (La Positiva) ficava pertinho do nosso hostel. O atendimento foi rápido (no máximo meia hora) e o serviço barato (cerca de 32 reais).

Nós achávamos que o SOAT só cobria terceiros, mas por lá descobrimos que os integrantes do veículo também são assegurados contra morte, invalidez permanente, gastos com serviço médico e funeral.

Endereço e horário de funcionamento La Positiva (Seguradora)
Calle Ernesto Rivera n°536
Segunda a quinta-feira:
8h às 12h30
15h às 18h30
Sábado:
8h às 13h
Documentos necessários:
Habilitação do condutor e documento do veículo (é necessário informar a quantidade de pessoas que irão dentro do veículo).



Cordilheira
Levamos o dia todo para chegar a Cusco. "Gastamos" muito tempo contemplando as estradas em meio às altas montanhas cobertas por florestas da amazônia peruana. Por causa da mata, provavelmente, havia pelo caminho muita água de rios e de degelo que escorria pelas montanhas e atravessavam a pista - muitas vezes estreita. Nesses pontos havia, inclusive, um piso diferente e abaulado (de concreto) para o escoamento da água, que fazia a diversão dos motoristas do Projeto N.E.R.A.

As pistas estreitas e cheias de curvas fechadas e os "siga e pare" (lá também tinha) nos tomou um pouco de tempo. Mas graças a uma dessas paradas conhecemos o Inka Cola, refrigerante doce (!) de cor amarelo fluorescente com sabor chiclete tutti fruti.





























Quanto mais seguíamos em direção a Cusco, mais se aproximava a cordilheira dos Andes, que estávamos ansiosos para atravessar. A paisagem começava a ficar diferente, com uma mata mais baixa e seca, e muitos picos nevados.

Já era noite quando chegamos, literalmente, ao pico da travessia: Abra Pirhuayani, o ponto mais alto da cordilheira. A 4.725m de altitude, às 18:17 horas (hora local) e provavelmente a uns 4 graus Celsius encostamos próximo à placa que comprovaria nossa travessura.

Na cara e na coragem, saímos de dentro do carro para fazer fotos. Foi uma primeira prova de resistência às altas altitudes e ao frio. Ficamos cerca de uma hora por lá. Resultado: alguns sentiram falta de ar e dor de cabeça - era o primeiro mal de altitude do grupo. Por outro lado, pudemos contemplar o céu estrelado em meio à cordilheira nevada e até fazer alguns belos registros. Não precisa nem perguntar se valeu a pena, né?















































Dali em diante, seguimos firmes e fortes rumo a Cusco. Descemos a cordilheira, chegamos à cidade, procuramos uma hospedagem e repomos as energias para conhecer as ricas cultura e história inca da região nos dias seguintes.

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sábado, 1 de agosto de 2015

De Minas ao Acre: uma jornada de 3.342 quilômetros



























Foi punk! O trajeto começou às 5 horas da manhã, na saída de Belo Horizonte, pela BR-262, rumo ao Acre, dalí a três ou quatro dias. Fizemos em três. Foram mais de 1.000 quilômetros por dia. Mas o foco na travessia Brasil-Peru nos deu energia para aguentar a rotina diária "volante - parada para o café - volante - parada para o xixi - volante… parada para dormir...".

As estradas sempre cheias de retas e com asfalto muito bom (com exceção de partes da Rondônia e do Acre) também foram um incentivo. Como recompensa, o horizonte plano nos proporcionou um pôr-do-sol espetacular por dia. Percorremos as BRs 262, 452, 364, 070, 174, 317 e as estaduais que havia entre essas.















































1º dia:
Alcançamos o primeiro destino por volta das 21 horas: Santa Rita do Araguaia (GO). O previsto era chegar até Mineiros, também em Goiás, cerca de 90 quilômetros antes. Mas era o primeiro dia de expedição, ainda estávamos descansados e prontos para ultrapassar nossos limites.

Dormimos numa das primeiras opções de hospedagem que ficava à avenida principal da cidade, onde passaram também todos os caminhões que cruzamos na rodovia. A hospedagem foi extremamente simples, mas tinha cama e garagem (essa última foi pré-requisito para todas as nossas estadias na viagem). Era o que precisávamos. Mas antes de dormir, entramos no clima de camping e fizemos nossa janta. Na garagem do lugar, abrimos as mesinhas de acampamento e acendemos os fogareiros!

2º dia:
No dia seguinte partimos cedo para atravessar o Mato Grosso e pernoitar em Vilhena, na Rondônia (ufa!). Mais uma vez, as retas com asfalto liso nos permitiram avançar e concluir o segundo dia conforme o planejado. Apesar disso, nesse dia, as estradas bateram recorde no quesito “fluxo de carretas”. Eram M-U-I-T-A-S! Também nos deparamos com alguns "pare e siga". Num deles, deu tempo de bater papo com um dos muitos caminhoneiros parados. Ele revelou que nós já tinhamos passado por ele pelas rodovias três vezes desde o dia anterior! Sentimos que estávamos famosos entre os caminhoneiros e até a animação aumentou para terminar a rota do dia! Será que viramos conversa de boleia de caminhão?!

No meio do caminho, experimentamos da famosa carne do Centro-oeste, sob o calor escaldante e abafado de Cuiabá. Numa churrascaria de posto muito boa decidimos fazer um almoço reforçado, sem medo do sono que poderia vir depois.

Ao chegar em Vilhena, por volta de 22 horas, buscamos um hotel pelo GPS e fizemos check in no Santa Rosa. Por lá, pernoitou também um grupo de motociclistas que seguia para o Atacama pelo Peru, assim como nós. Depois de lá, reencontraríamos os mineiros de Crucilândia algumas vezes mais pelas estradas do Brasil e do Peru.

No hotel, simples, mas muito mais aconchegante que o primeiro, o recepcionista nos contou que havíamos nos livrado dos pedágios dos índios da região, que andam de camionete de luxo e cobram cerca de 50 reais por pessoa para seguir pelas estradas locais. Foi bom ter chegado depois do horário comercial!

3º dia:
No último dia da saga para chegar ao Acre, cumprimos a missão parcialmente, mas ainda assim com sucesso! O objetivo era chegar a Rio Branco, mas pelo caminho descobrimos que não precisávamos. Seria um desvio de cerca de 100 quilômetros na nossa rota.

O dia havia rendido menos; já era noite e ainda não havíamos cruzado a divisa. E não o faríamos até o dia seguinte. Chegamos "somente" até Extrema (RO), totalizando 1.048 quilômetros, Para isso, percorreremos uma reta incessante que beirava por quilômetros uma fronteira obscura com a Bolívia. E depois atravessamos uma balsa sobre o Rio Madeira e sob o primeiro céu estrelado que veríamos pela expedição (para nossa surpresa, foi ainda no Brasil). O cansaço batia à porta e, depois de muitos quilômetros sem ver civilização, eis que surge Extrema!

No primeiro hotel de beira de estrada à vista paramos! Para nossa sorte, tinha vaga, garagem, acomodação confortável e café da manhã bem servido. O Hotel Rodeio parecia recém-construído e tinha inclusive rede wi-fi! Por lá, encontramos com outro grupo de motociclistas que “rumavam” para o Atacama. Esses eram (e vinham) de Maceió (AL).



























Não chegamos ao Acre no terceiro dia, mas faltaram pouco mais de 50 quilômetros para cruzar a divisa. Paramos antes, em Extrema, porque já era tarde (umas 23 horas), estávamos cansados e ainda faltavam cerca de 450 quilômetros para chegar à fronteira com o Peru, pela rodovia Interoceânica (ficou para o dia seguinte). Até ali, foram 3.342 quilômetros.

A expedição começou punk e estávamos cansados. Mas em compensação tínhamos ganhado um dia extra para aproveitar o Peru. Podíamos ter feito o mesmo trajeto em quatro dias, conforme previa nosso plano B. Mas superamos o primeiro dos muitos desafios da viagem, e, a bem da verdade, felizes como pinto no lixo!