terça-feira, 6 de outubro de 2015

A chegada em Aguas Calientes: travessia do paso de Abra Malaga e a trilha de Santa Teresa





















O foco era chegar a Aguas Calientes (ou Machu Picchu Pueblo) ainda no 8º dia. Foi uma das menores distâncias percorridas em um mesmo dia até aquele momento da expedição. Porém, foi também um dos caminhos mais sinuosos, e incluía ainda uma caminhada de 12 quilômetros. Mas era preciso chegar, porque os ingressos para visitar Machu Picchu estavam comprados para o dia seguinte cedo.

Partimos de Urubamba, no Valle Sagrado, por volta das 11 horas, com tranquilidade. Afinal, tínhamos apenas cerca de 130 quilômetros para percorrer. Mas chegamos em Aguas Calientes somente às 21 horas!

Seguimos com calma, aproveitando o restinho do Valle Sagrado. Fizemos uma rápida passagem pela charmosa Ollantaytambo, onde valeria uma pernoite, conforme planejamos, mas tivemos que riscar do plano no dia anterior. Fizemos mais algumas paradas pela estrada para apreciar o vale, que é realmente de tirar o fôlego. São quilômetros de asfalto que cortam os altíssimos paredões de montanhas. Lá você não vê o cenário de longe, mas passa por dentro dele.



























Paso de Abra Malaga - O percurso que seria rápido começou a se prolongar por causa da altitude e das curvas dos vales de Ollantaytambo e de Santa Maria, separados pelo paso de Abra Malaga. O caminho passa a ficar muito sinuoso com curvas que formam zigue-zagues. Foram muitos deles - grandes e pequenos. A altitude freou nossa velocidade, o que foi bom para manter a viagem segura e os viajantes sem risco de enjoos.



Alcançamos a altitude de 4.330 metros, no auge do paso, onde só havia neblina e fazia frio. Mas o restante da paisagem é recompensador. Abra Malaga atravessa a Cordilheira dos Andes e presenteia seus exploradores com paisagens com picos nevados e lhamas atravessando a pista ou fazendo pose nas montanhas. No trajeto de descida, cruzamos com muitos turistas seguindo estrada abaixo de bicicleta, o que nos deixou com uma pontinha de inveja.



Hidrelétrica - As emoções não pararam nas curvas da cordilheira. A travessia desse trecho dos Andes levava a Santa Maria, rota para o próximo pit stop: a cidade de Santa Teresa. Lá começaríamos a trilha de 12 quilômetros a pé para Aguas Calientes, onde é praticamente impossível chegar de veículo próprio. Somente por trekking ou trem. Desde o início, nosso plano foi fazer a primeira opção, seguindo pela trilha que se inicia na hidrelétrica de Santa Teresa. O trem era uma alternativa cara e descartada desde o Brasil pela falta de aventura. ;) Mas quem quiser ir de trem, informamos que é possível partir ainda de Cusco e deve-se comprar as passagens com a mesma antecedência que os ingressos para Machu Picchu.

Chegando a Santa Maria, existe uma entrada à esquerda que leva a uma estrada de terra que não encontraríamos não fosse a geolocalização do GPS. Não existiam placas. Mas antes de entrar na "estrada da morte", estacionamos para um pão com ovo, afinal, já eram umas 14 horas.

Nosso plano era chegar à hidrelétrica até antes das 17 horas para não fazermos a trilha à noite. Por sorte chegamos pouca coisa depois. A estrada de terra era muito estreita e margeada por ribanceiras que terminavam no imenso Rio Vilcanota. A paisagem árida e cinza contrastava com a imensa quantidade de água do rio que serpenteava a rota logo abaixo. Ficamos imaginando como não seria o volume de água em época de chuva...















































Depois de cerca de 40 minutos só na companhia do rio, eis que surge Santa Teresa, com toda uma estrutura de cidade, mesmo que pequena. O sol já baixava e rapidamente buscamos informações sobre como chegar à hidrelétrica e onde deixar o carro. Recebemos a indicação de um camping que nos pareceu bem seguro (sorte a nossa, porque já não sobrava tempo para escolhas). Havia estacionado lá um jipe com placa da Suécia. Era de um casal daquele país que viajava pela América do Sul e acabara de fazer a trilha que iríamos começar. Trocamos algumas dicas e partimos em um "táxi" improvisado no local com as mochilas prontas para aquele dia e o seguinte (as malas estavam arrumadas desde Cusco).

Em Santa Teresa é comum esse transporte de turistas por motoristas locais até a hidrelétrica. Pagamos relativamente barato: 5 soles por pessoa. E deixamos combinado para que nos buscassem no dia seguinte (já? sim!) por volta desse mesmo horário (mais 5 soles por pessoa). A ida para Aguas Calientes por esse caminho é uma opção barata (não há ingressos para fazer o trekking), rápida e fácil, se comparada com a trilha inca oficial, que leva de 2 a 5 dias e custa algumas centenas de dólares.

Do "táxi" até o início da trilha eram mais 20 minutos pela continuação da estrada anterior com suas ribanceiras. Vimos a famosa hidrelétrica do alto e um desvio de água impressionante que vazava de um buraco gigante e redondo cravado em uma das imensas rochas do local (imaginamos que isso deveria ser obra da hidrelétrica). Se estivéssemos no nosso carro (o que não é permitido ou recomendado), demoraríamos muito mais. Mas os motoristas que vão e vem estão acostumados com as vias estreitas, os cruzamentos com outros carros e os buracos no chão. Para eles era automático, para nós foi parte da aventura!

Trilha sobre trilhos - Por volta de 17h30, quase como previmos, o táxi nos deixou no ponto de partida da trilha, ao longo dos trilhos do trem. Tínhamos lido que a caminhada duraria cerca de 3 horas. Mas demoramos um pouco mais. Nosso ritmo não foi lento, principalmente, depois que a noite caiu e já não havia mais paisagem para nos distrair. Na volta fizemos o mesmo percurso (afinal, precisávamos buscar os carros) e marcamos o tempo e a distância. O foco nos fez chegar bem mais rápido (2h30). E o Maps.me comprovou o trabalho duro: são 12 quilômetros de caminhada.

Mas vale cada centímetro deles para quem está disposto ao esforço. Você cruza com vários turistas na ida e na volta e curte o clima tropical por um caminho seguro. O tempo inteiro você está cercado de mata, água, enfim, natureza! É possível ver, de um dos trechos, um pedacinho da cidade de Machu Picchu lá em cima de uma montanha! E vez ou outra o trem passa e relembra que estamos no caminho certo e que há civilização por perto.

Na ida e na volta fizemos o final do trecho à noite, mas na ida o pedaço no escuro foi maior e nos deixou muito ansiosos, porque já tínhamos pouco mais de três horas de caminhada e não havia sinal de luz ou cidade por perto. Mas de repente, depois de uma última curva, já fora do caminho dos trilhos, surge o vilarejo que nos levaria a Machu Picchu!

A entrada da cidade por essa trilha não é tão charmosa. Parece que entramos por uma espécie de galpão de reciclagem de lixo seco, mas logo avistamos os vários micro-onibus que sobem de lá para Machu Picchu (os únicos transportes da cidade) e uma rua calçada que leva às primeiras pousadas.





















É um vilarejo charmoso, muito pequeno e dividido por um rio. À noite é ainda mais bonito com as luzes dos restaurantes e das ruazinhas, onde só se circula a pé. Durante o dia dá para ver a arquitetura simples do local, mas que não diminui a principal beleza dele: estar encrustado no meio das mais altas montanhas. Além disso, era porta de entrada para Machu Picchu, que conheceríamos no dia seguinte!


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